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domingo, 14 de agosto de 2011

O Terreno


Sem dor ou remorso, caminha pelo terreno abandonado que exala senescência. Dá um pontapé naquilo que não lhe apetece – é a regra da vida. Quantos já não foram chutados? Às vezes, só queria ser recolhido pela Dona Inês, chorar em seu colo ininterruptamente e receber aquele cafuné dos deuses, tão dela.
Era assim sempre, na infância, aprontava, apanhava, acolhiam-no; trocando em miúdos, chutava, era chutado, recolhiam-no.
De que adiantara agora? Dona Inês era lembrança e Dona Inês exalara relva e orvalho. Meio século vivente dessa senhora e seu cheiro era de coisa nova e boa. Bons tempos! Mas naquele dia em que vira Dona Inês de um incolor duro, estática numa caixa grande que cheirava à madeira velha, percebera que o frescor vai-se embora e que vamos nos unir a tudo o que cheira à terra podre.
Foi-se seu refúgio, restara-lhe ser jogado e permanecer com o lixo, não o recolheriam.
Terra podre, era terra podre? Podridão telúrica, diria se fosse poeta. De qualquer forma, nunca teve talento tampouco tempo para essas coisas pensantes e sentimentais. Deveras, perda de tempo. Ninguém sai incólume da vida, nem da morte.
Droga!
No terreno baldio, aparecera um prego enferrujado que se pôs a espetar intensamente o seu pé descalço e calejado.
Grr, maldita chuva!
Por que teria que escorrer líquido que ha de se unir à terra podre? Vinha e se misturava ao escarlate do sangue humano. Mescla idiota, pensara profundamente. E o quanto fora idiota ao suspirar em silêncio por Clarinha, a dama de vermelho e de seus sonhos. Anos depois lá estava a moça, casada com o Tenente Ramos. Acostumara-se, então, à vida de solitude: todos somos terra podre, resmungara.
Diante de si, estava o tronco queimado, indiferente (objeto inerte de uma paisagem clichê). Em pouco, o tronco também juntar-se-ia à terra podre, o ciclo de tudo, um Universo regido por leis mesmas. E como tronco, ele tombou no chão unindo-se à podridão telúrica. Pelo canto do olho, assistiu àquele pequeno verde que nasce da terra podre.
Dera um sorriso mudo. Um suspiro profundo. Era terra.


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